OS DEZESSEIS PRECEITOS

Postado por Norma Villares


Três Preceitos Iniciais:

- Buda.
- Dharma
- Sangha.

Três Preceitos Puros:

- Evitar cometer atos maus.
- Fazer o bem.
- Acudir e beneficiar todos os seres.

Dez preceitos das ações perniciosas:

- Não tirar a vida.
- Não roubar.
- Não se deixar levar por arroubos sensuais.
- Não mentir.
- Não tomar bebida inebriante.
- Não falar do defeito dos outros.
- Não elogiar a si mesmo e nem caluniar os outros.
- Não ter vaidade em praticar o Dharma.
- Não alimentar a raiva.
- Não maldizer os Três Tesouros.





Os Preceitos de Bodisatva

 Monja Coen Sensei 

Perspectivas literal, subjetiva e intrínseca.


Tanto nas escolas Rinzai quanto Soto do Zen, o estudo detalhado dos preceitos ocorre ao término do treinamento formal. Os estudantes de koans da escola Rinzai podem se preparar constantemente, por até dez anos, antes de começarem a estudar koans sobre os preceitos (ou vinte ou trinta anos, se a preparação não for contínua). Similarmente, na escola Soto, o estudo detalhado dos preceitos ocorre quando o aluno está chegando ao fim do treinamento formal.

Em minha linhagem, o exame detalhado dos preceitos envolve o estudo dos dezesseis preceitos de Bodisatva bem como dos comentários feitos sobre eles por Bodidarma (que trouxe o Budismo da Índia para a China) e por Dogen. O estudo inclui 150 a 200 koans que tratam especificamente dos preceitos como formulados pelo professor Soto, do século XX, Daiun Harada Roshi.

Mesmo que, na abordagem tradicional, o estudo dos preceitos ocorra mais ao fim do que no início da preparação dos estudantes, devemos recordar que os preceitos são parte do sangue e da medula do treinamento do monge Zen, implicitamente presentes em cada aspecto da prática. De fato, a vida monástica é estruturada de tal forma que as atividades diárias incorporam esses preceitos. Além disso, os monges Zen japoneses leem muito sobre os preceitos antes de estudá-los formalmente; o número de livros japoneses sobre o tema é extenso!

Por isso acredito que, no Ocidente, onde a maioria dos praticantes Zen não é monástica, devemos estudar e discutir os preceitos no começo do estudo formal em vez de no final, mantendo o hábito de retornar aos mesmos enquanto nossa prática amadurece. Ao fim podemos fazer um estudo mais formal dos preceitos, porém é importante que estes se tornem parte de nossa medula, de nossa essência e de nossa vida desde o início.

E por que, no Japão, considera-se inapropriado o estudo dos preceitos nos primeiros estágios da prática? Porque, a princípio, o praticante não tem a chamada sabedoria fundamental ou um insight penetrante sobre o vazio que lhe permita ver ou apreciar facilmente os preceitos de um ponto de vista intrínseco.

Na época de Xaquiamuni Buda, as regras ou linhas diretivas que governavam as ações da sanga se desenvolviam de uma maneira orgânica, específica, em resposta a determinadas situações. Geralmente, para cada regra formulada por Xaquiamuni Buda, havia uma situação concreta correspondente. Por exemplo, naquela época, o algodão era um tecido caro e luxuoso[1]. Os monges mendicantes eram sempre convidados a visitar os lares dos leigos que se desdobravam para conseguir lhes oferecer camas e travesseiros de algodão. Já que se pressupunha que os monges deveriam levar uma vida muito simples e não se considerar como seres especiais, Xaquiamuni Buda formulou uma regra contra o uso do algodão. O propósito geral de todas as regras era promover a harmonia da sanga.

Entretanto, quando essas regras foram transportadas de cultura para cultura através dos séculos, a tendência foi cada vez mais esquecer seu contexto original. Assim, indicações, que começaram relativas, situacionais, acabaram se tornando normas absolutas, obrigatórias. Outra consequência dessa assimilação cultural foi uma divisão entre as comunidades leigas e monásticas. Tornou-se comum, em determinadas formas de Budismo, somente os monges receberem a série completa de preceitos enquanto os praticantes leigos recebiam uma série bem menor. Além disso, em estágios diferentes da vida monástica, os monges passaram a receber grupos diferentes de preceitos tirados da série completa. Em algum ponto na história da seita Zen, a transmissão da série completa de preceitos aos monges foi interrompida. Em vez disso, passaram a ser transmitidos os agora chamados Preceitos de Bodisatva, dados tanto a leigos quanto a monásticos.

Esses dezesseis Preceitos de Bodisatva diferem significativamente, em espírito e intenção, daqueles da série de regras originais desenvolvidas nos dias de Xaquiamuni Buda. Em vez de prescrever regras de conduta, eles descrevem os vários aspectos que nos constituem fundamentalmente. Por essa razão, é impossível transgredi-los em essência; de fato, não tem sentido falar de transgressão. Todavia, quando nós os estudamos, parece impossível não transgredi-los. Ambas as afirmativas são verdadeiras. Torna-se necessário apenas estabelecer uma distinção entre transgredi-los, por um lado, e quebrá-los, por outro.

Pegue um copo e pense nele como sendo os preceitos. A cada momento nós o sujamos, turvamos, deixamos manchas no vidro. Por quê? Porque nós o utilizamos! Mesmo se o deixarmos de lado, sem usá-lo, ele ficará sujo. Transgredir os preceitos é sujar o copo pelo uso; quebrá-los é deliberadamente despedaçar o vidro. Nós dizemos que, a não ser por um completo colapso nervoso ou suicídio, nada quebra os preceitos, apenas os transgride. Tudo, exceto a real autodestruição, implica somente uma transgressão que constantemente reparamos ao limpar o copo.

Deixe-me falar sobre três maneiras de olhar os preceitos e assim explicar porque nós não podemos transgredi-los, embora a cada instante o façamos. São três as maneiras de olhar os preceitos: a literal, a subjetiva e a intrínseca (a natureza-buda). Da perspectiva literal, é simplesmente proibido desobedecer qualquer dos preceitos por qualquer razão, independente do contexto ou das circunstâncias cambiantes. Por exemplo, consideremos a regra de que um monge não deve sentar ou dormir – ou mesmo ficar em pé – sobre qualquer objeto de algodão. Certa vez um monge budista Theravada visitou o Zen Center de Los Angeles. Como ele observava essa regra, nós removemos tudo que era feito de algodão do centro, incluindo as almofadas e esteiras que usávamos para meditação. Da perspectiva literal, o que fizemos foi absolutamente necessário; não havia razão ou desculpa para não concordar com a remoção. Tal espírito de obrigação incondicional e de obediência caracteriza a perspectiva literal. De seu ponto de vista, cada um dos dezesseis preceitos expressa um mandamento realmente obrigatório.

Não é o mesmo caso, porém, das perspectivas subjetiva e intrínseca. A perspectiva subjetiva tem dois aspectos: a compaixão e um sentido mais ou menos intuitivo de retidão e do que é apropriado. Já que compaixão aqui significa o funcionamento da sabedoria prajna, esse aspecto depende da profundidade da realização do praticante, o que também salienta sua habilidade de determinar intuitivamente o certo ou o errado em uma dada situação ou circunstância. Dessa perspectiva, a agitação e o aborrecimento causados pela acomodação do monge Theravada, em razão de todo aquele esforço estar sendo feito apenas para uma pessoa e de o algodão não ser mais um item de luxo, tudo teria que ser levado em consideração antes da tomada de qualquer atitude.

A terceira perspectiva é a intrínseca, a que expressa o ponto de vista do estado do vazio, o reino da unicidade. Desse ponto de vista, é impossível transgredir qualquer dos preceitos porque não há algo chamado preceitos nesse reino (ou qualquer outra coisa, aliás). Não há aspectos da vida, há somente o Corpo Único da vida em si mesma, desprovido de qualquer traço de multiplicidade, mas nunca o mesmo a cada instante. Não há diferença entre o algodão e qualquer outro produto, não há distinção entre luxuoso e não luxuoso. Não há distinções em absoluto no estado do vazio.

O problema é que supostamente deveríamos manter os preceitos a partir de todas as três perspectivas ao mesmo tempo, sem fazer escolhas entre uma ou outra. Do ponto de vista intrínseco, não há como transgredir os preceitos; do ponto de vista literal, quase não há como não transgredi-los. Parece impossível manter as três perspectivas de modo simultaneo, a não ser permanecendo plenamente no estado de unicidade.  De fato, a forma como podemos evitar as transgressões aos preceitos é pela “expiação” das mesmas, penetrando no estado de não-separação.

Da perspectiva intrínseca, dizemos que os dezesseis Preceitos de Bodisatva podem ser condensados no primeiro: Seja Buda, Seja o Iluminado, esteja em harmonia (seja em-um). Este primeiro preceito então se desdobra nos Três Tesouros:

Seja Buda.
Seja o Darma.
Seja a Sanga.
Os Três Tesouros são o fundamento ou a manifestação da fonte de nossa vida.
Em seguida, vem os Três Preceitos Puros:
Evitar o mal.
Fazer o bem.
Fazer o bem aos outros.

Eles são chamados o Corpo dos Três Tesouros. Os Preceitos Puros, quando desdobrados, tornam-se os Dez Preceitos Graves, que são o funcionamento do corpo dos Três Tesouros.

O propósito do estudo dos preceitos consiste em aprofundar nossa consciência sobre os diferentes aspectos de nossas vidas e sobre o fato de que sujamos o copo o tempo inteiro. Como resultado, somos guiados no sentido de cuidar melhor do copo. As razões ou causas pelas quais o copo fica sujo não são necessariamente uma questão de certo ou errado nem, no fim das contas, tão importantes quanto limpar o copo. Quando estudamos os preceitos, nosso entendimento de – e gratidão por – tudo envolvido no processo de sujar e limpar o copo é aprofundado e desdobrado.  Essa é a razão pela qual se dá ênfase à limpeza em um monastério Zen.  Não importa se achamos que algo está de fato limpo ou sujo; simplesmente limpamos! A limpeza continua constantemente. Nessa lida, o estudante Zen acaba por se tornar o processo de limpeza, mudando inevitavelmente em sua relação consigo mesmo, com seu meio-ambiente e com as pessoas que encontra. Entretanto, embora sempre presente desde o começo da prática, o processo de limpeza convive, ao mesmo tempo, com o desenrolar dos eventos cotidianos que tornam a vida igualmente uma bagunça constante. É interminável. Nunca alcançamos o ponto de não mais precisar limpar o copo.

O ato de limpar – literal ou metaforicamente - é um dos pontos mais importantes no estudo Zen dos preceitos. Lavamos os pratos e daqui a pouco ganhamos uma nova pilha deles para lavar. Nunca termina! A consciência desse processo, porém, não produz passividade ou paralisação, levando as pessoas a deixarem os pratos se amontoarem na pia.  Olhamos para a bagunça se formando e partimos para a ação. Momento a momento, as circunstâncias nos empurram, para fora dos esquemas de auto-organização que temos em mente, e nos fazem funcionar em meio ao caos. Como agir? Agindo simplesmente!

Os Três Tesouros e os Três Preceitos Puros
Os três primeiros preceitos, que são os Três Tesouros, podem ser traduzidos de várias formas. Eu os traduzo como:
Seja Buda.
Seja o Darma.
Seja a Sanga.

Quando meu mestre, Taizan Maezumi Roshi, e eu trabalhamos na tradução dos Três Tesouros, para a cerimônia de recebimento dos preceitos, ponderamos qual seria a melhor tradução para o verbo “ser” na enunciação dos três primeiros preceitos: se na forma imperativa “seja” ou no gerúndio “sendo”. Decidimos, então, que o oficiante diria “Seja Buda, Seja o Darma, Seja a Sanga” e que a pessoa iniciante responderia “Sendo Buda, Sendo o Darma, Sendo a Sanga”. Outras traduções aceitáveis são “prestando tributo a Buda” ou “refugiando-se em Buda”.

Do ponto de vista intrínseco, a tradução apropriada seria “sendo Buda”, pois desde o início já somos o próprio Iluminado. Precisamos descobrir e experimentar essa realidade e, mesmo sem sucesso, devemos tê-la sempre em mente.

Da perspectiva intrínseca, não se pode vir a ser Buda. “Seja Buda” reflete o ponto de vista experimental. Você tem que entender que é Buda. Sendo Buda, temos que nos tornar Buda, temos que aprofundar nossa compreensão dessa natureza até que não tenhamos mais um conceito sobre ser o Iluminado. Uma vez que se tenha experimentado esse estado, “sendo Buda” e “Ser Buda” se fundem.

Há três formas diferentes de olhar para os Três Tesouros. A primeira consiste no Corpo Único dos Três Tesouros, refletindo a perspectiva de que somos todos uma coisa só, constantemente mudando, evoluindo e se desdobrando. Por exemplo, estamos caindo com e como a flor que se desprende da árvore em Los Angeles. Da perspectiva do Corpo Único dos Três Tesouros, Buda é o mundo do vazio. Não se trata de uma espécie de espaço vazio, mas, ao contrário, do universo inteiro; ou, em termos matemáticos, trata-se do conjunto universal que contém ou é tudo que existe.  Se esse conjunto universal está pleno a ponto de transbordar com tudo que existe sem exceção, em que sentido é vazio? No sentido de que contém toda a existência antes de nomearmos os seres assim ou assado, completamente independente de todos os conceitos, rótulos ou categorias. Se não houver conceitos, não haverá forma de excluir qualquer coisa desse conjunto universal; isso é o que o torna universal. Excluir algo requer a percepção, a consciência de que algo é isso ou aquilo. Esse interesse compulsivo por discriminar os objetos é o que nos mantém incapazes de compreender que nós somos o conjunto universal. Para ser o conjunto universal indivisível precisamos não-conceituar.

O Darma do Corpo Único dos Três Tesouros se constitui do mundo das formas, dos fenômenos, da multiplicidade. Equivale a todas as formas possíveis com as quais se pode classificar ou conceitualizar as partes do conjunto universal. Ao olharmos para uma mandala, vemos uma imagem ou modelo desse conjunto universal: no centro se encontra o Buda Vairochana representando o mundo do vazio e disseminando, a partir de seu centro, todas as formas possíveis. O centro se constitui de todas as formas possíveis; todas as formas possíveis constituem o centro. Assim ocorre porque o centro é um ponto sem dimensão. Sendo nada, não exclui nada; excluindo o nada, é tudo.

A Sanga do Corpo Único dos Três Tesouros se constitui da harmonia existente entre Buda e o Darma, a unicidade e a multiplicidade, o vazio e a forma. Essa harmonia resulta do fato de que Buda e o Darma são a mesma coisa. Eles são distintos e iguais simultaneamente. Então, quando assumimos o compromisso de nos tornar o Buda, o Darma e a Sanga, estamos nos comprometendo a ser tudo isso. Intrinsecamente, não há como não sermos os Três Tesouros, mas, ao mesmo tempo, precisamos experimentar essa realidade e tomar consciência dela. Não podemos nos contentar em simplesmente dizer: “Eu sou Buda, então não há mais nada a fazer”. Nós temos que assimilar o que são os Três Tesouros.

A segunda forma de olhar para os Três Tesouros é chamada Os Três Tesouros Realizados (ou Manifestados). Nesse caso, Buda é Xaquiamuni Buda, visto não como a figura histórica mas sim como a corporificarão da consciência de que somos todos essencialmente seres iluminados. Quem quer que seja iluminado é Xaquiamuni, a manifestação dessa consciência. Ao não se dar conta dessa realidade, embora qualquer um possa tranquilamente se chamar de Vairochana Buda (a representação da iluminação original ou intrínseca), não poderá, da mesma forma, chamar-se Xaquiamuni Buda (a realização da iluminação intrínseca).

O Darma dos Três Tesouros Realizados consiste nos ensinamentos do Iluminado que geralmente se referem aos ensinamentos de Xaquiamuni Buda como expressos nos sutras. Entretanto, em um sentido mais amplo, nós também podemos falar sobre os ensinamentos de qualquer pessoa realizada como o Darma dos Três Tesouros Realizados. A sanga dos Três Tesouros Realizados se constitui dos discípulos do Iluminado que realizaram o Caminho. Assim quando assumimos o voto de ser Buda, o Darma e a Sanga, nós nos comprometemos a ser o Buda realizado, o Darma realizado e a Sanga realizada.

A terceira forma de olhar para os Três Tesouros é chamada os Três Tesouros Mantidos. Quando estudamos os Três Tesouros deste ponto de vista, estudamos a importância da linhagem e da transmissão do Darma. Embora, estritamente falando, não haja nada a transmitir, temos que transmitir o Darma; essa é a prioridade número-um dos professores Zen. Os Três Tesouros são mantidos pela continuidade da linhagem intrinsecamente ininterrupta desde Xaquiamuni Buda até o presente. (A linhagem de fato começa com os Sete Budas, anteriores a Xaquiamuni Buda, há um tempo incalculavelmente distante!).

O Buda dos Três Tesouros Mantidos se refere a todas as imagens, fotos e formas dos iluminados. Quando chegamos à sala de estudos e nos deparamos com os retratos de nossos professores, entendemos que eles também são parte de nosso compromisso de nos tornarmos o Buda dos Três Tesouros Mantidos.

O Darma dos Três Tesouros Mantidos consiste em todos os teishos, ou palestras Zen, de um mestre Zen. Teisho é uma palavra de difícil tradução porque não se encaixa em nenhuma classificação apropriada. Digamos que um teisho seja a fala de alguém iluminado. Os teishos afastam as opiniões em vez de acrescentar novas ideias a nossa bagagem de conceitos. O Darma nesse sentido inclui não apenas as falas como também as ações dos iluminados.

A Sanga dos Três Tesouros Mantidos se refere a todas as pessoas que se comprometem com o Caminho de Buda e praticam para realizá-lo.

Os Três Tesouros são importantes como a roda do leme que nos mantém no rumo certo.
Os Três Preceitos Puros são:
Evitar o mal.
Fazer o bem.
Fazer o bem aos outros.

“Evitar o mal” enfatiza não contribuir para o aumento da delusão no mundo, sendo essencialmente uma forma passiva de olhar a vida. Por contraste, “fazer o bem” enfatiza agir para o aumento da clarificação espiritual no mundo, sendo, por isso, uma forma mais ativa de ver a vida. “Fazer o bem” enfoca o que podemos fazer para melhorar nossa própria situação. “Fazer o bem aos outros” aciona todas as esferas aparentemente externas a nós mesmos. O primeiro e o segundo Preceitos Puros lidam conosco e o terceiro com os outros.

Quando falamos do ponto de vista intrínseco, onde não há separação entre o eu e o outro, os três preceitos se fundem.

Toda a ação que fazemos pode ser encarada do ponto de vista dos Três Preceitos Puros. Sempre podemos nos perguntar: o que estou fazendo, exatamente agora, é mau ou me torna uma pessoa mais deludida? O que estou fazendo, neste exato instante, melhora minha situação ou me traz o bem? O que estou fazendo agora é bom para os outros? “Evitar o mal” me diz para não fazer nada que possa vir a tornar uma situação mais deludida. O que estou fazendo me ajuda a entender o significado da vida? Essa questão se origina do ponto de vista do “Fazer o bem.” O que estou fazendo ajuda as pessoas a entenderem o significado da vida?  Essa questão se origina do ponto de vista do “Fazer o bem aos outros.”

Vamos dar uma olhada na atividade da meditação Zen (Zazen) em termos dos Três Preceitos Puros. Quando a vemos como um tempo que nos damos do estresse da vida diária, nós a consideramos em termos de “Evitar o Mal”. Quando a encaramos como uma terapia individual – para encontrar paz de espírito, tranquilidade, descanso, etc. - nós a encaramos em termos de “Fazer o Bem”.

Entretanto, é no “Fazer o bem aos outros” que reside a maior importância do Zazen porque este progressivamente quebra a distinção entre o eu e o outro. Trata-se de uma fonte de energia poderosa e irrestrita que flui de forma natural e se estende infinitamente a todo o universo. Não se pode tentar pará-la porque, se o fizermos, não se tratará mais de prática Zen, já que o Zen equivale a toda a vida. Aquelas pessoas que buscam no Zen algum tipo de santuário estão implicitamente rejeitando a vida inteira e se contentando com apenas uma parte dela onde possam se sentir à vontade. Temos que ser o Bodisatva “praticando em profunda prajanaparamita”, o que significa abandonar qualquer fantasia de descanso. Quando fazemos Zazen nos tornamos conscientes de um centro sem forma – como o olho de um furacão – que é extremamente calmo e, ao mesmo tempo, um redemoinho de tremenda atividade abrangendo tudo. A energia do Zazen naturalmente nos leva além dos preceitos “Evitar o mal” e “ Fazer o bem”, ambos restritos à esfera do eu, para a esfera do “Fazer o bem aos outros”.

Um poeta chinês certa vez perguntou a um mestre Zen: “-O que é mais importante no Budismo?” O professor respondeu: “-Evitar o mal e fazer o bem.” O poeta disse: “-Até uma criança de três anos pode repetir essas palavras.” O mestre replicou:    “- Sim, mesmo uma criança de três anos pode repetir essas palavras, mas até uma pessoa de oitenta anos ainda acha difícil realizá-las.”

Frequentemente acontece de fazermos alguma coisa boa para nós – porque nos ajuda a clarificar a compreensão do sentido da vida – que pode não ser boa para os outros. Um exemplo é deixar nossas crianças se virarem sozinhas pela manhã para que possamos nos sentar no zendo. Precisamos sempre olhar para o que acontece da forma o mais objetiva possível, sabendo, ao mesmo tempo, que, independentemente do lugar de onde observamos, nunca veremos tudo com clareza suficiente.

Outra considerável fonte de conflito durante a prática tem a ver com optar por evitar o mal sem entender que essa opção passiva pode desrespeitar os outros Preceitos Puros que enfatizam a importância de se fazer algo, não apenas sentar. O importante é ter em mente que cada ação, cada decisão, deve ser encarada do ponto de vista de todos os três preceitos. Não se trata de escolher um em detrimento do outro. Os três estão simultanea e implicitamente presentes em qualquer ação ou decisão.

Trata-se de olhar o que ocorre tão claramente quanto possível, sabendo ou não o que fazer. A total confiança em nossas ações e decisões surge somente com a plena iluminação, então não podemos realisticamente ter grandes expectativas a esse respeito. Além do mais, mesmo após o surgimento da confiança plena, continuaremos a transgredir os preceitos. A diferença da situação anterior é que perceberemos porque os transgredimos. Vemos a forma pela qual cada ato se constrói, conjuntamente com um intrincado conjunto de circunstâncias e condições, e como a satisfação de uma ou mais perspectivas transgride algumas tantas outras. Por essa razão, precisamos estar constantemente reparando nossos erros, o que não significa autopunição. Significa, novamente, tornar-se em-um (estar em harmonia), condição imprescindível para o Zazen e para o aprofundamento da prajanapramita.

Fazer Zazen é ver a interconexão de toda a vida, de todo o Corpo Único. É perceber como nosso sentar e tudo que fazemos afeta todo o mundo e todas as coisas. No entanto, mesmo não conseguindo constatar essa realidade, devemos pelo menos aceitar o fato de que ela existe. Precisamos entender que o que chamamos eventos, pessoas ou objetos são apenas relacionamentos e intersecções de fenômenos que refletem todas as outras intersecções de fenômenos. Esse entendimento é o grande salto que devemos dar em nosso sentar, com a certeza de que teremos sucesso porque não somos nada além do que o próprio salto!

Tudo que fazemos, até dormir sozinhos no quarto com as luzes acesas, afeta o todo o universo. Quando realmente nos conscientizamos disso, nossa vida inteira muda. Compreender quem ou o que somos é compreender que somos este Corpo Único. No momento em que nos conscientizamos disso, tudo no Corpo Único é realizado. Então vemos quanto há para fazer porque nossa perspectiva, inicialmente restrita ao eu, não está mais limitada agora. Quando nos vemos como parte de tudo que existe, percebemos o quanto há para ser feito. Limpar o copo é uma tarefa sem fim, e é precisamente esse limpar interminável o que caracteriza o estado do Corpo Único.


GLASSMAN, Bernard (Bernard Tetsugen). The Bodhisattva Precepts. In: Infinite Circle in Zen/Bernie Glassman. Tradução de Gozen Míriam Martinho. Boston, Massachussets: Shambhala Publications, Inc, 2002, p. 109-117.

 Fonte:

 http://www.monjacoen.com.br/textos-budistas/textos-diversos/345-os-preceitos-de-bodisatva




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