20 de jun. de 2014
DIFÍCIL SER TRANSPARENTE?
13 de nov. de 2009
GENTILEZA E AFETO
As pupilas dilatadas pelo amor humano. Gentileza e Afeto.
Há algum tempo, li não sei onde um episódio ocorrido com uma escritora que foi passar dois meses numa região montanhosa de um país europeu, num período do ano em que era freqüente acontecerem grandes tempestades; ia com o propósito de conhecer os costumes da gente do campo e colher assim material para um romance.
Quando estava desfazendo as malas no pequeno chalé que alugara, com a ajuda da caseira que morava perto dali, desabou um grande temporal e as luzes se apagaram. A caseira acendeu umas velas e, enquanto atiçava o fogo na lareira, bateram à porta. Era um rapazinho de uns doze anos, conhecido da caseira. Depois de recuperar o fôlego, o menino disse:
- Vim ver se está tudo bem com a senhora.
A caseira agradeceu e apresentou-o à escritora. Como a ventania aumentasse e a chuva caísse com mais força, o rapaz perguntou à recém-chegada:
- A senhora não tem medo?
A escritora ia dizer que não, mas a caseira, que evidentemente não estava nem um pouco assustada, atalhou-a:
- É claro que ela estava morrendo de medo, assim como eu. Mas agora temos um homem aqui, e tudo vai ficar bem.
Quando a tormenta passou, o menino despediu-se e saiu, capengando do modo mais garboso que podia.
A escritora ficou pensativa e perguntou-se: "Por que não me ocorreu responder à pergunta do menino como a caseira?"
E evocou tantas situações da sua vida em que se mostrara pouco sensível às necessidades dos outros por estar absorvida nas suas coisas.
"Que havia naquela mulher simples do campo - continuou a pensar - que a tornava capaz de transformar um menino aleijado num homem confiante?"
E teve de reconhecer: simples detalhes de gentileza e afeto.
Pois é precisamente no convívio com as outras pessoas que a atenção para os detalhes se reveste de um significado especial.
Merece até um nome particular: delicadeza, que reclama uma grande diligência e grandeza de alma. É ela que permeia todas as virtudes próprias da convivência, como a cordialidade, a afabilidade, o acolhimento, o perdão, a paciência, enfim, a caridade.
Manifesta-se principalmente, em palavras de Machado de Assis, "nesse desejo de bem servir que é a alma de toda a cortesia".
Nunca deveria dar-se motivo para o comentário cético daquele que dizia que o lar é o centro geométrico das grandes dedicações e das pequenas desatenções.
Mas trata-se de exercitar a "arte de ser amável" não apenas no sentido ativo, mas também no sentido passivo, isto é, facilitando aos outros que nos queiram bem.
Quando penso nisto, lembro-me sempre de um cantor nacional que, há uns trinta anos, fazia um programa de TV com muito sucesso e que, no fim de cada apresentação, se despedia com as mesmas palavras:
"Continuem a querer-me bem, que não custa nada".
É isso o que quero dizer com ser amável no sentido passivo: que, pela nossa gentileza, não custe aos outros nada ou quase nada querer-nos bem.
Fonte:
Fonseca J Malvar. Coisas Pequenas. Editora Quadrante, São Paulo, 1996.
Gentileza a Afeto devem andar de mãos dadas. É por meio do bom e gentil contato com o outro que formamos uma consciência numinosa.
Segue flores perfumadas para cada ser de luz que nos adicionou e nos visita, nos dois blogs.Vida perfumada pelo amor é uma vida com trilhas iluminadas.Feliz dia da GENTILEZA!
Paz Profunda!
3 de nov. de 2009
É TEMPO DE TRANSCENDÊNCIA
O PROFETA é aquele que anuncia e denuncia. Anuncia aquilo para qual o ser humano foi essencialmente criado, e denuncia os esquemas que atentam contra seu destino.
A transcendência é a capacidade e o desejo de romper limites, de ir além, superar e violar os interditos.
Nesse livro 'Tempo de Transcendência', Leonardo Boff compreende a transcendência como um desejo e uma capacidade do ser humano para transcender a si mesmo, ou seja, de sair de seu estado atual para buscar algo novo.
Ele apresenta a atitude de Adão e Eva no jardim do Édem como expressão de sua transcendência, de sua transformação em ser humano.
Apresenta a transcendência como uma experiência mais sentimental – o apaixonar-se, o êxtase com um experiência, o deslumbramento diante de uma realidade nova, a admiração...
Não é possível segurar ou prender as emoções e os pensamentos do ser humano.
“Rompemos tudo, ninguém nos aprisiona”.
O ser humano é um ser desejante ilimitado.
Mas “quem preenche esse vazio profundo dentro de nós?
Qual é o objeto adequado ao nosso desejo infinito, que nos satisfaz e nos traz descanso?
Por que quero o infinito e só encontro o finito?
Quero o ilimitado, a totalidade, e só encontro fragmentos?
Aqui se revela o ser humano como um ser protestante e insatisfeito.”
Três atitudes (respostas) possíveis com relação à abertura ao ilimitado:
1) Existencialismo. Viver de si para si mesmo. A abertura do ser humano para o transcendente não encontra ou busca por um objeto;
2) Agnosticismo. “Sentem o desejo do espírito, identificam um eventual objeto do desejo, mas temem aderir a ele. Sofrem com a falta de resposta;
3) As religiões. Tem coragem de dar nome a esse objeto de desejo chamando-o de Deus. “Deus só tem sentido existencial se for resposta à busca radical do ser humano por luz e caminho a partir da experiência de escuridão e de errância”.
Quando Nietzsche “anuncia a morte de Deus, ele fala do Deus que tem que morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo”.
O ser humano é um ser essencialmente transcendente. Ele não se conforma com a realidade. Está sempre se projetando ‘para fora’. Busca satisfazer um desejo e uma capacidade para transcender a si mesmo, ou seja, de sair de seu estado atual para buscar algo novo.
O ser humano também é dado a uma pseudotranscendência. São experiências “fabricadas” para levar o ser humano ao êxtase a uma fuga da realidade. Existem critérios que permitem verificar se a transcendência é boa.
O ser humano vive em busca da satisfação do desejo interior que ele carrega consigo. Diante de sua abertura ao ilimitado o ser humano geralmente opta por três escolhas possíveis: negar um objeto de desejo e querer satisfazer-se consigo mesmo; percebe um objeto de desejo que pode satisfazê-lo mas nega a admiti-lo; reconhece um Deus que é a resposta à sua busca existencial.
O cristianismo traz a transparência. Deus vem ao mundo na pessoa de Jesus Cristo e habita entre nós. Deus está em tudo e em todos. A encarnação de Deus em forma de homem constitui a singularidade da espiritualidade cristã.
Assisti três vezes o filme "A Vida é Bela" de Bengnini.
É uma experiência fantástica de transcendência feita por uma criança no transfundo da guerra e do campo, de concentração judeo, alimentando o sonho de ganhar como presente em tanque de guerra. Apesar daquele horror do campo de concentração que cristaliza a negação de toda a diginidade humana, a possibilidade do ser humano, de viver a transcendência, de garantir o sonho e o humor finalmente acaba se realizando: encontrar o tanque real, tanque que o vem libertar a ele e sua mãe.
Noutro caso, ele lembra as memórias de Rudolf Hess, diretor nazista do campo de extermínio de Auschwitz.
Conta que sua função era conduzir judeus á câmara de gás, se me lembro, cerca de um milhão e trezentas pessoas. Foi julgado e antes de ser enforcado, teve tempo de escrever suas memórias. O que impacta é a frieza com que faz, absolutamente convicto da retidão de seu comportamento, pois obedecia ordens do Hitler o “Führer”. E o “Führer; o chefe sempre tinha razão”. E ai pratica o mal com absoluta boa vontade.
Agora entendemos a frase de Pascal:
“Nunca fazemos tão perfeitamente o mal senão quando fazemos de boa vontade”.
Mas há um momento que me abalou, é o momento de transcendência dele. Foi quando, uma mulher com cinco crianças suplicou de joelhos que ele poupasse as crianças. Por um instante ficou embaraçado e perplexo, mas com um gesto brusco mandou que levassem a todos.
Ele comenta:
“Aquele olhar da mulher jamais posso esquecer”. Ele me persegue sempre, até os dias de hoje, porque havia nele tanto enternecimento, súplica, tanta humanidade, que me senti inimigo de minha própria humanidade.
É uma experiência de transcendência pelo reverso, possível até no nazismo mais brutal. Esse olhar ele jamais poderá esquecer e, talvez venha a ser a única experiência em sua vida que despertou algo profundo em sua alma.
Eu espero que cada amigo leitor, vá a procurar de sua experiência de transcendência e conquiste em sua história outras tantas.
Nesse vídeo Leonardo faz uma palestra sobre esse tema, e vale a pena assisitir.
Paz Profunda!
Abraços
Fonte: Boff Leonardo. Tempo de Transcendência. Editora Sextante, 2000.