SENTIDO CRISTÃO DE MISTÉRIO E MÍSTICA

Postado por Norma Villares

 


O judeo-cristianismo identifica o mistério e Deus na história do povo, particularmente, na história dos oprimidos. Por isso afirma um Deus histórico, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, dos Profetas e de Jesus de Nazaré. O Deus da história apresenta-se como um Deus ético. Por isso a mística bíblica é uma mística dos olhos abertos e das mãos operosas. Piedoso e servidor do Deus histórico é aquele que se compromete com a justiça, toma o partido do fraco e tem a coragem de denunciar a religião do puro louvor sem a mediação do amor ao próximo.


 



Deus é experimentado na luta dos oprimidos do Egito e dos cativos na Babilônia. Dele se diz que escuta o grito do oprimido e abandona sua luz inacessível, desce para colocar-se do lado dos injustiçados (cf. Ex 3,4). Os que se sentem abandonados, os órfãos e peregrinos, devem saber que seus direitos são direitos de Deus (cf. Dt 10; Jr 22,15; Pr 22,22-23), pois abandonados e não tendo ninguém para socorrê-los são socorridos por Deus mesmo. Por isso se afirma que “o opressor do pobre injuria o Criador, mas honra a Deus quem se compadece dele” (Pr 14-31). A obra do Messias é libertadora, na medida em que consiste em fazer justiça aos desamparados e visa inaugurar a nova ordem de paz e fraternidade a partir dos últimos (cf. Is 11,4-9; 42-1-4).
     Ao lado desta mística do compromisso ético, porque Deus se encontra na ação justa e na relação amorosa para com os outros, existe também uma mística da contemplação. O universo todo foi criado por Deus. Os seres humanos (homem e mulher) são lugares-tenentes de Deus, representantes divinos em seu ser e em seu agir. Em tudo podemos contemplar a marca registrada de Deus impressa nas criaturas e na realidade espiritual e corporal do ser humano. Tal saboreamento de Deus na obra da criação e no trabalho humano permite a louvação e a exaltação da alma que vibra e se entusiasma.
     O Novo Testamento prolonga e radicaliza a mesma linha da experiência de Deus na história. Afirma que Deus entrou totalmente na realidade humana, pois se humanizou no judeu Jesus de Nazaré. A partir de agora, o lugar de encontro de Deus será preferentemente na vida humana, particularmente, na vida dos crucificados. Esse Deus não se encarnou na figura do César em seu trono, nem do Sumo sacerdote em seu altar, nem do Sábio em sua cátedra, mas na figura dos oprimidos e excluídos que acabam fora da cidade e crucificados. O mistério transcendente que se encarnou se encontra crucificado. Grita na cruz por vida e quer ressuscitar.
     A ressurreição de Jesus crucificado quer reafirmar o primado da justiça e da vida, anunciar a sacralidade da insurreição contra a ordem deste mundo e revela a promessa feita a todos os injustamente penalizados de que eles também herdarão a plenitude da vida, quer dizer, a ressurreição. Pois Jesus se fez um deles. Seu destino feliz é destino prometido a todos os que tiveram sorte semelhante àquela de Jesus.
     A mística cristã, porque é histórica, orientar-se-á pelo seguimento de Jesus. Tal propósito implica um compromisso de solidariedade para com os pobres, pois Jesus se contou entre eles e pessoalmente optou pelos marginalizados das estradas, do campo e das praças das cidades. Implica um compromisso de transformação pessoal e social, presente na utopia pregada por Jesus, do Reino de Deus que começa a realizar-se na justiça dos pobres e a partir daí para todos e para toda a criação.
     O seguimento de Jesus pela proposta nova que proclama introduz conflitos: há os que, por causa desta proposta, se sentem prejudicados em seus interesses e reagem através do uso da violência simbólica ou física. Por isso o seguimento pode comportar perseguições e até martírio. Mas tudo é assumido jovialmente como preço a se pagar pela solidariedade para com os sofredores e para com o Servo sofredor Jesus. O cristão discerne na paixão dos pobres e marginalizados a presença e atualização da paixão de Jesus que continua agonizando na carne e no grito de seus irmãos e irmãs. Mas vê também nos avanços rumo à instauração da justiça e da promoção da vida os sinais da ressurreição acontecendo na história.