23 de jul. de 2009

PÉROLAS LÚDICAS DE KALIL GIBRAN


A sensibilidade e a sabedoria de Kalil Gibran, é uma luz que faísca em cada pensamento desta mente clarificada pela lucidez espiritual. Forte como um rasgo de criatividade que ensina com o lúdico na arte de viver. Cada mensagem caleidoscópica mostra o belo a ser realizado no cotidiano, sempre rico em profundidade, simplicidade e de uma beleza ímpar. A sensibilidade e espiritualidade de Gibran ainda toca o coração da humanidade, deixando uma lembrança do inefável e do indizível. Ao escrever este post, fiquei muito sensível e senti grande admiração por este senciente que tocou meu coração suavemente, espero que toquem seus corações com estes pensamentos:


· Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados.

· Um livro e como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem.

· Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada.

· No amor , fiquem juntos , mas não tão juntos, pois os pilares do templo ficam bastantes afastados e o carvalho e o cipreste não crescem um na sombra do outro

· Dizeis: darei só aos que precisam. Mas os vossos pomares não dizem assim; dão para continuar a viver, pois reter é perecer.

· Pode contar seus segredos ao vento, mas depois, não vá culpá-lo por contar tudo às árvores

· O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio.

· Todo o trabalho é vazio a não ser que haja amor.

· Trabalho é amor tornado visível.

· A música é a linguagem dos espíritos.

· Cada vez mais desesperadamente o homem procura dilatar o tempo que já não tem.

· Uma voz não pode transportar a língua e os lábios que lhe deram asas. Deve elevar-se sozinha no éter.

· O desgosto é o obscurecimento do espírito e não o seu castigo.

· A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes.

· Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.

· As flores desabrocham para continuar a viver, pois reter é perecer.

· A sabedoria é a única riqueza que os tiranos não podem expropriar.

· O importante para uma pessoa não são os seus sucessos mas sim quanto os deseja.

· O prisioneiro que tem a porta do seu cárcere aberta e não se liberta, é um covarde.

· A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes.

· Anda, parar é covardia e olhar para a cidade do passado é ignorância.

· ...Ide para os vossos campos e jardins e aprendereis que o prazer da abelha consiste em retirar o mel da flor.Mas também a flor tem prazer em dar o seu mel à abelha.Pois para a abelha a flor é uma fonte de vida. E para a flor a abelha é mensageira de amor. E, para ambas, abelha e flor, o dar e o receber de prazer é uma necessidade e um êxtase.

· A simplicidade é o último degrau da sabedoria.

· O desejo é a metade da vida; a indiferença a metade da morte!

· Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada.

· Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria.

· Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.

· Quem não sabe aceitar as pequenas falhas das mulheres não aproveitará suas grandes virtudes.

· A música é a linguagem dos espíritos.

· E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.

· Tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos.

· Quando você levantar o braço para bater em seu filho, ainda com o braço no ar, pense se não seria mais educativo se você descesse esse braço de forma a acariciá-lo, em vez de machucá-lo.

· Dizeis: darei só aos que precisam. Mas os vossos pomares não dizem assim; dão para continuar a viver, pois reter é perecer.

· Numa só semente de trigo há mais vida do que num montão de feno.



Ao usufruir deste manancial de sabedoria, deixe que o toque de seu coração vibre no coração do outro.

Paz Profunda!



22 de jul. de 2009

UM CONTO DE KALIL GIBRAN


Eu estava andando nos jardins de um asilo de loucos, quando encontrei um jovem rapaz, lendo um livro de filosofia. Por seu jeito, e pela saúde que mostrava, não combinava muito com os outros internos.

Sentei-me ao seu lado, e perguntei: – O que você está fazendo aqui?


Ele me olhou surpreso. Mas, vendo que eu não era um dos médicos, respondeu: É muito simples. Meu pai, um brilhante advogado, queria que eu fosse como ele. Meu tio, que tinha um grande entreposto comercial, gostaria que eu seguisse seu exemplo. Minha mãe desejava que eu fosse a imagem de seu adorado pai. Minha irmã sempre me citava o seu marido como exemplo de um homem bem-sucedido. Meu irmão procurava treinar-me para se um excelente atleta como ele. E o mesmo acontecia com meus professores na escola, o mestre de piano, o tutor de inglês – todos estavam convencidos e determinados que eram o melhor exemplo a seguir. Ninguém me olhava como se deve olhar um homem – mas como se olha no espelho”.


“Desta maneira, eu resolvi internar-me neste asilo. Pelo menos, aqui eu posso ser eu mesmo”.



21 de jul. de 2009

KALIL GIBRAN, O SENSÍVEL PENSADOR


O libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931) é muito conhecido no mundo inteiro, sua arte inspirada pela mística e idealismo lhe renderam muitos livros, e distingue-se pela beleza e a pureza das formas.

Influenciado pela mística dos poetas sufis Rumi e Khayyam, dos séculos XI e XII que pertenceram a época de ouro da civilização islâmica, apesar da distância secular estes poetas sensíveis se encontram bem atuais. Bem como, foi influenciado por outras fonte como: Nietzsche, Willian Blake e a Biblia. Nos seus inúmeros livros ele trata de temas como o amor, a amizade, a morte e a natureza entre outros.

"Asas Partidas" é um livro que se destaca pela sensibilidade, nele o autor fala de sua primeira história de amor.

Outro livro que marcou sua existência foi o “O Profeta”, onde a beleza se fez presente com muita sensibilidade mística.

Depois escreve outros livros que são um tratado sobre a transcendência, como: “O Precursor”; “O Louco”; “Areia e Espuma”; “ Jesus, o Filho do Homem”; “Os Deuses da Terra”. E após sua morte foram publicados mais dois: “O Errante e o “O Jardim do Profeta”. Nestes livros há presença marcante de conceitos sufistas, mostrando o isolamento do poeta como sinal de sabedoria, preservação dos valores eternos do Espírito, contra um mundo cada vez mais insano, trazendo a transição da poesia transcendental do Século XIX ao XX. Estas obras fizeram dele um precursor da "Nova Era".


Sua Poesia promove a transmutação da consciência:

O PROFETA

Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro, mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto,vibram na mesma

harmonia.

Dai vosso coração,mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida pode conter vosso coração.

E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.



DIVINA MÚSICA!

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura e do Amor.
Sonho do coração humano, fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes, confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros, fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.

Em tuas profundezas depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos e a ouvir com os corações.



OS FILHOS
(Do Livro "O Profeta")

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."

E ele falou:

Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois suas almas moram na mansão do amanhã,

Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força

Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:

Pois assim como ele ama a flecha que voa,

Ama também o arco que permanece estável.



O AMOR


E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis que tremem ao sol, também penetrará até às raízes sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo, para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus.
Tudo isto vos fará o amor, para poderdes conhecer os segredos do vosso coração,e por este conhecimento vos tornardes o coração da Vida.
Mas, se no vosso medo, buscais apenas a paz do amor, o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez e sair do campo do amor, a caminho do mundo sem estações,onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos, e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor basta ao amor.
E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso.
O amor não tem outro desejo senão consumar-se.
Mas se amarem e tiverem desejos, deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente.
Acordar de manhã com o coração cheio e agradecer outro dia de amor.
Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor.
Voltar a casa ao crepúsculo e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado, e na boca, um canto de louvor.



AINDA ONTEM PENSAVA QUE NÃO ERA


Ainda ontem pensava que não era

mais do que um fragmento trémulo sem ritmo

na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera, e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:

" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia

sobre a margem infinita

de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,

e todos os mundos não passam de grãos de areia

sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.

Foi quando um homem me perguntou:

"Quem és tu?"





AMOR

Quando o amor acenar, siga-o ainda que por caminhos
ásperos e íngremes.

Debulha-o até deixá-lo nu.

Transforma-o, livrando-o de sua palha.

Tritura-o, até torná-lo branco.

Amassa-o, até deixá-lo macio;

e, então,submete ao fogo para que se transforma em pão
para alimentar o corpo e o coração!


Livro "O PROFETA" : http://www.starnews2001.com.br/kahlil/profeta.pdf


9 de jul. de 2009

A LUZ DO CALEIDOSCÓPIO GIRANDO

A descoberta da UNIDADE FUNDAMENTAL de todas as tradições espirituais, tem a base no despertar da sabedoria primordial, inseparável do AMOR. Constitui o apanágio e o objetivo essencial de toda tradição espiritual, seja ela hinduísta, budista, islâmica, cristã ou judaica.
Até o século XIX, a comunicação entre estas tradições eram verdadeiramente pobres. Salvo raras exceções, a desconfiança ou mesmo a hostilidade eram a regra, ocasionando, muitas vezes, conflitos, massacres e guerras religiosas.
A partir do século XX, os diálogos e os encontros entre os representantes das diversas religiões se multiplicaram, iniciando novos caminhos para o despertar amoroso.

A unidade de tudo que existe no Universo é o Amor. E esta unidade amorosa constitui a base do diálogo inter-religioso. Na prática este diálogo ainda tem muitas problemáticas.
Mas é preciso sonhar com este diálogo, e um dia todos descobrirão o AMOR como objetivo comum.

A unidade de tudo que existe no Universo é o Amor!
Paz Profunda!


BALL SHEM TOV E A LUZ

Um dia Israel foi chamado pelo rabino local, que resolveu dar-lhe lições de judaismo. O baal Shem em rápida sucessão, colocava e tirava sua máscara de simplório.
O rabino ficou per­plexo: como era possível que uma expressão pudesse mudar num rosto com tal rapidez? Estupefato, o rabino exigiu que o visitante lhe contasse a verdade. "Que assim seja", disse o Baal Shem, "mas, por ora precisas guardar para ti o que vou te contar."

No entanto vivia em Brodi, uma mulher que era louca. Ela via atraves da máscara de todos os homens. Face a face com o Baal Shem, ela disse:

"Eu sei quem tu és e não rne assustas. Eu sei que possuis certos poderes; também sei que não podes usá-los antes dos trinta e seis anos de idade".

"Cale-se!" - replicou - " de outra forma eu terei que convocar uma corte para desapossar o Dybuk de dentro de ti."

A mulher, assustada, segurou a língua - mas ela sabia. Sete anos solitários e ascéticos se passaram antes que o Baal Shem re­cebesse a ordem de se revelar e assumir seu destino.

Naquele sábado especial, um aluno de Reb Gershon interrompeu a jornada para passar o Shabat com Israel e Hannah. Era meia-noite quando acordou trémulo de medo. Uma flama imensa estava se levantando da terra. Com intenção de evitar um incêndio correu para extingui-la. Aí então, viu o rosto do Baal Shem cercado de uma auréola de luz e desmaiou. Quando estava voltando a si, ouviu o Baal Shem o repreender:

"Não se olha onde não se deve". Depois do Shabat o viajante apressou-se a retomar a Brodi, onde correu à Casa de estudos, anunciando as grandes novas: "Há uma nova fonte de luz qui perto". Todos correram para a floresta e lá construíram um trono com ramos e folhas. O Besht tomou seu lugar. "Eu abrirei um caminho novo”, declarou.

Ele tinha trinta e seis anos.

A previsão da louca tinha sido correta. Ela sabia antes de qualquer outra pessoa. Estranho: mais do que os homens mais eruditos e devotos da cidade, ela falava a linguagem do jovem santo da floresta.

Referência bibliográfica:
1. Elie Wiesel. Almas em Fogo. Editora Perspectiva, São Paulo, 1979, pág. 18-19.

18 de jun. de 2009

FILIGRANAS DO SÁBIO NASRUDDIN


COMO NASRUDDIN CRIOU A VERDADE

Em dada ocasião, um rei chamou Nasrudin para se consolar:


- Ah, Mullá, estou triste. Meu povo anda mentindo demais, não sei mais o que fazer. O que posso fazer quando o povo me falta com a verdade.


- Acontece, Rei - respondeu Nasrudin - que nem sempre é fácil diferenciar a verdade da mentira.

- Mas é claro que é, Mullá - retrucou o rei - a verdade impele ao bem, enquanto a mentira só visa enganar...

- Essa é a teoria, mas é preciso que todos saibam na prática o que é mentira e o que é verdade...

- As leis não fazem que as pessoas fiquem melhores - disse Nasrudin ao Rei. - Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.

O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade — e assim o faria.

O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que por ali passassem. Um edital fora imediatamente publicado:

“Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso minta, será enforcado.”

Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar a ponte.

— Aonde o senhor pensa que vai? — perguntou o Chefe da Guarda.

— Estou a caminho da forca — respondeu Nasrudin, calmamente.

— Não acredito no que está dizendo!
— Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.

— Mas se o enforcarmos por mentir, faremos que aquilo que disse seja verdade!
— Isso mesmo — respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. — Agora vocês já sabem o que é verdade: é apenas a sua verdade.



O ANÚNCIO

Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:
"Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?"
Logo juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando: "Queremos, queremos!"
"Excelente!", disse o Mullá. "Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim."


O BARCO E O HOMEM LETRADO

Em dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:
-Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.
-Não, nunca - respondeu Nasrudin.
-Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.
Nasrudin ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
-Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mullá ao homem letrado.
-Não, nunca - este respondeu.
-Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.
Quem teve tempo de realizar esta prática, irá compreender perfeitamente esta interessante fábula sufi:


A FANTASIA

Nasrudin está caminhando, quando alguém o cumprimenta.
- Que tal? - pergunta Nasrudin. - Gostou da minha fantasia?
- Fantasia? - diz o recém-chegado. - Você está igual!
- Não estou igual. Estou disfarçado.
- Disfarçado de que? De você mesmo?
- Exatamente! O disfarce é tão bom, que você nem percebeu!


SAÚDE PARA VENDER

“Eu tenho saúde para dar e vender”, disseram a Mullá Nasrudin. “Então me dê um dos seus rins que eu vendo”, respondeu o Mullá.


A BUSCA DA VERDADE ABSOLUTA

Estava Nasrudin junto a seu Mestre, aprimorando os conhecimentos da alma, na busca da verdade absoluta. Eis que um dia Nasrudin, com seu espírito brincalhão, acabou por infringir os códigos de humildade e simplicidade inerentes ao comportamento dos discípulos. Para que o mulá se apercebesse da gravidade de seu erro, o Mestre transformou Nasrudin num porco, ordenando-lhe que vivesse por um ano no chiqueiro, junto aos outros animais. Perdida a forma humana, mas não a irreverência e a leveza de espírito, Nasrudin facilmente se ambientou e, em poucas horas, se esqueceu completamente da sua origem. Chafurdando alegremente na lama não tardou, com sua contagiante simpatia, a conquistar uma bela e redonda porquinha, que em pouco tempo, deu à luz uma ninhada de filhotinhos gordinhos e saudáveis. Desatento e desligado do tempo, Nasrudin acostumou-se ao chiqueiro e à limitada perspectiva de sua vida suína.
Um ano se passou, e terminado o prazo do castigo, veio o Mestre buscar Nasrudin para devolvê-lo ao convívio dos discípulos:
- Nasrudin, ó Nasrudin!
Abandona essa vida de porco, já que não és porco, mas sim humano, um discípulo que busca a iluminação!
Volte para junto dos seus!
- Quem, eu? - respondeu Nasrudin – Não senhor. O Mestre se engana, nasci assim, sempre fui porco, e esse mar de lama é a única pátria que conheci. Apresento a minha linda porquinha e nossos filhotinhos! Se aqui deixou o Mestre algum discípulo, certamente deve ser outro porco, não eu. Sou feliz, não quero partir.
Nasrudin se esquecera, completamente, da verdadeira identidade, e não foi pouco o esforço despendido pelo Mestre para convencê-lo a abandonar o cenário passageiro de sua punição.
De volta ao eu humano, consciente da graça divina de pertencer, Nasrudin incorporou para sempre os ensinamentos e riquezas da verdadeira humildade."


NASRUDIN E O VARAL

Um vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu:
- Nasrudin, você me empresta o varal de secar roupa que o de lá de casa se quebrou?
- Um momento, disse Nasrudin - vou perguntar à minha mulher.
Momentos depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho
- Desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal pois minha mulher está secando farinha nele.
O vizinho, surpreso, exclamou:
- Mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!
E Nasrudin respondeu:
É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...


O SERMÃO DE NASRUDIN

Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita.
Ele concordou.
Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou:
"Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?"
"Não, não sabemos", responderam em uníssono.
"Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja", disse o Mullá, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.
Desceu do púlpito e foi para casa.
Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia de oração.
Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes.
Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
"Sim, sabemos".
"Neste caso", disse o Mullá, "não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora." E voltou para casa.
Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
"Sabem ou não sabem?"
A congregação estava preparada.
"Alguns sabem, outros não."
"Excelente", disse Nasrudin, "então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem."
E foi para casa.

O JUMENTO MORRE DE CANSAÇO

Nasrudin resolveu procurar novas técnicas de meditação. Selou seu jumento, foi a Índia, a China, a Mongolia, conversou com todos os grandes mestres, mas nada conseguiu.
Escutou falar que havia um sábio no Nepal: viajou até lá, mas quando subia a montanha para encontra-lo, seu jumento morreu de cansaço. Nasrudin enterrou-o ali mesmo, e chorou de tristeza. Alguém passou, e comentou:
- Você buscava um santo, e este deve ser seu túmulo. Na certa, está lamentando sua morte.
- Não, é o lugar onde enterrei meu jumento, que morreu de cansaço.
- Não acredito - disse o recém-chegado. - Ninguém chora por um jumento morto. Isso deve ser um lugar onde os milagres acontecem, e você quer guarda-lo só para si mesmo.
Por mais que Nasrudin argumentasse, não adiantou. O homem foi até a aldeia vizinha, espalhou a história de um grande mestre que realizava curas em seu túmulo, e logo os peregrinos começaram a chegar.
Aos poucos, a notícia da descoberta do Sábio do Luto Silencioso se espalhou por todo o Nepal - e multidões acorreram ao lugar. Um homem rico foi até ali, achou que tinha sido recompensado, e mandou construir um imponente monumento onde Nasrudin enterrara ´seu mestre´.
Em vista disto, Nasrudin resolveu deixar as coisas como estavam. Mas aprendeu de uma vez por todas que, quando alguém quer acreditar numa mentira, ninguém lhe convencerá ao contrário.


MEU OLHO DÓI!

Um camponês aproximou-se de Nasrudin e queixando-se de que seu olho doía, pediu-lhe um conselho.
Então Hodja disse-lhe:
- Outro dia meu molar doía, e não me acalmei enquanto não o arranquei.


SOBRE OS GURUS

Um famoso guru do povoado pretendia ser capaz de ensinar uma pessoa analfabeta a ler mediante uma técnica relâmpago.
Nasrudin saiu do meio do povo.
— Pois bem, me ensine então.
O guru tocou a testa de Hodja e disse:
— Agora vá imediatamente para sua casa e leia um livro.
Passada meia hora, Nasrudin voltou à praça do mercado com um livro nas mãos. O guru já tinha ido embora.
— E então, você é capaz de ler agora, Hodja? — perguntaram-lhe as pessoas.
— Sim, posso ler, mas este não é o caso. Onde está aquele charlatão?
— Como pode ser um charlatão se fez com que você conseguisse ler sem nenhum aprendizado?
Este livro, que provém de autoridades indiscutíveis, diz:
“Todos os gurus são uma verdadeira fraude”.


A FELICIDADE NÃO ESTÁ ONDE SE PROCURA

Nasrudin encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os motivos de tanta aflição.
"Não há nada na vida que interesse, irmão", disse o homem. "Tenho dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei."
Sem mais palavra, Nasrudin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo, correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa distância.
A estrada fazia uma curva e Nasrudin foi cortando o caminho por vários atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à espera do outro.
Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
"Essa é uma maneira de se produzir felicidade", disse Nasrudin.

EM VISITA A ÍNDIA

O célebre e contraditório personagem sufi Mulla Nasrudin visitou a Índia. Chegou a Calcutá e começou a passear por uma de suas movimentadas ruas. De repente viu um homem que estava vendendo o que Nasrudin acreditou que eram doces, ainda que na realidade fossem chiles apimentados. Nasrudin era muito guloso e comprou uma grande quantidade dos supostos doces, dispondo-se a dar-se um grand banquete. Estava muito contente, se sentou em um parque e começou a comer chiles a dentadas.Logo que mordeu o primeiro dos chiles sentiu fogo no paladar. Eram tão apimentados aqueles "doces" que ficou com a ponta do nariz vermelha e começou a soltar lágrimas até os pés. Não obstante, Nasrudin continuava levando os chiles à boca sem parar. Espirrava, chorava, fazia caretas de mal estar, mas seguia devorando os chiles. Assombrado, um passante se aproximou e disse-lhe:
- Amigo, não sabe que os chiles só se comem em pequenas quantidades?
Quase sem poder falar, Nasrudin comentou:
- Bom homem, creia-me, eu pensava que estava comprando doces.
Mas Nasrudin seguia comendo chiles. O passante disse:
- Bom, está bem, mas agora já sabes que não são doces. Por que segues comendo-os?
Entre tosses e soluços, Nasrudin disse:
- Já que investi neles meu dinheiro, não vou jogá-los fora.
O Grande Mestre disse: Não sejas como Nasrudin. Toma o melhor para tua evolução interior e joga fora o desnecessário ou pernicioso, mesmo que tenhas investido muito dinheiro ou tempo neles.